Religião, movimento humano

Os temores infantis da humanidade perdida procuram um Deus seguro, fazem-no à sua própria imagem, depois “pedem a Lei que quebre as suas leis”. Numa ou noutra forma encontramos o Brâmane sombrio na Índia, o oráculo estrela caldeu, o zoroastriano dualista, o Jeová judeu - “Adonai ou Eloim, o Deus que fere, o Guerreiro”. Passa pelos deuses da Grécia, formosos e frágeis humanos, e chega ao Odin do norte. Esses temores não percebem a religião com um movimento humano em desenvolvimento, e continua os temores, assiste a morte do Grande Pã, chega o nazareno e ocupa o seu assento debaixo do sol. E, é claro, o credo miserável do pecado herdado.

Depois do cristianismo, o islamismo. O árabe esguio, comedor de lagartos, domina por completo as terras do gral de Jamshid, foram-se as idílicas tradições dos persas. Esses são os modos de religiões organizadas: “surgiram, reinaram, pelejaram, e caíram.
Não existe o bem, nem o mal, tal como é mensurado pelos padrões comuns, o que, isso significa só se experimenta na consciência interior (sufi). Expresso na estrutura limitada das palavras, parece destrutivo. Para o homem, bom é o que ele aprecia; mau, o que lhe causa dano. Essas ideias mudam com a localização, a raça e o tempo. Muitos vícios já foram virtudes, muitos atos bons já foram rechaçados como pecado ou crime. O bem e o mal se entremisturam.

O literalista, que proclama que o estado primitivo do homem era o ideal, sofre agora pesado bombardeio.
Esse homem primitivo aprendeu a construir com os castores e as formigas; e quando se tornou senhor do fogo, se fez senhor dos homens. Aumenta-se a consciência quando este homem se apodera das peles dos animais. A herança da animalidade ainda subsiste no homem, e manifesta-se no comportamento de uns em relações aos outros. Desafiando sua história conhecida, a humanidade não aceita explicação de si mesma baseada na crença literal de contos e fábulas. De mais, a mais, se a tradição não for verdadeira, o que é a verdade? O que pensamos de verdade não é tal. Esse gênero de verdade é temperamental, mutável.

“As percepções, quando percebem de fato, transmitem a verdade objetiva, que é universal; ao passo que, os reflexos e os pensamentos, as atividades da região moral, ou o lobo médio dos frenologistas fornecem apenas a verdade subjetiva, pessoal e individual”.
A verdade Objetiva constitui a meta do Sufi.
A luta para encontrar a verdade vem, em parte, em sua forma real, do abandono de toda luta.
“Basta de pensar que a Verdade existe; vamos nos sentar onde esplendem as rosas, na verdade não sabe como não saber, quem tampouco sabe como não saber, a verdade é o espelho estilhaçado em centenas de pedaços, a passo que cada pedaço acreditar ser o espelho todo”.

A espécie de fé que o homem não regenerado toma pela verdade, é tão frequentemente imóvel e fixa porque é apenas o que denominaríamos um condicionamento. Essa falsa fé existe, “E por que? Porque as tolas fantasias do homem ainda persistem, e persistirão até que o homem sábio desperte e despreze os devaneios da juventude”.
A fé é um acidente de nascimento, um produto do meio em que se vive. A ignorância da própria ignorância é o verdadeiro inimigo do homem que habita dentro de si mesmo. Lave-se e retire este pó oculto.
Por: lecobx@gmail.com
Fonte: Os Sufis - Idries Shah